A liberdade é a possibilidade do isolamento

«A liberdade é a possibilidade do isolamento. Se te é impossível viver só, nasceste escravo.» Fernando Pessoa

Muitas foram as vezes que me cruzei com esta frase, ao longo da vida e se há altura em que ela faz muito sentido é precisamente no “agora”. Vivemos tempos difíceis em que nos é pedido afastamento, isolamento, quarentena, o que lhe queiram chamar.

Lidar com o isolamento não é uma situação fácil, especialmente porque estamos habituados a viver com muitas pessoas ao nosso redor, na vida familiar, profissional, escolar, social, etc. Aliás, somos nós mesmos que muitas vezes procuramos um sem número de ocupações para estar em contacto com muitas pessoas e estímulos e nem nos apercebemos que estamos a fazer uma coisa que é prejudicial: estamos a fugir de nós próprios, com tantas ocupações. Fugir de sentimentos, emoções, situações, dores, preocupações. Tantas são as queixas de que estamos cansados(as), mas na hora de largar há sempre uma desculpa. E a desculpa prende-se com o nosso inconsciente: “Eu largo e faço o quê? Penso em mim, na minha vida e nos meus problemas, no que me dói? Nem pensar!” Então, é aqui que o isolamento se torna insuportável, porque temos de olhar para dentro.

E agora um cliché que costumo usar e que também se aplica hoje, mais do que nunca: Podes fugir de todos, mas nunca de ti! E este é o tempo em que não fugiste de todos, foi-te imposto, mas tens de dar de “frente” contigo e mergulhar em ti mesmo(a). Isto traz muita ansiedade, stress, angústia… no limite as pessoas podem ter ataques de pânico. E embora não seja fácil, deixem-me dizer que é normal que isto aconteça, porque de repente a nossa vida ficou do avesso! Depois vêm as questões do futuro também: a crise que se vai instalar, a incerteza do futuro profissional, trabalhos que não podem ser remotos, rotinas que se alteram, educar e cuidar crianças em simultâneo e crianças com os seus naturais anseios a lidarem com esta situação. Para algumas pessoas, esta imposição de isolamento, sem uma data prevista de fim, pode ser desesperante.

Eu própria, sendo psicóloga, não tenho todas as respostas para fazer com que tudo fique bem, mas há pequenas coisas que podemos adotar de forma a atenuar sentimentos tão difíceis, eis alguns exemplos:

  • Dormir bem, entenda-se 7/8h;
  • Fazer uma boa alimentação;
  • Fazer exercício físico (temos muitos PT’s com vídeos e planos de treino nas redes sociais);
  • Ligar aos nossos familiares e amigos (já que não podemos estar presencialmente);
  • Ler;
  • Ouvir música;
  • Fazer um curso online (de um novo idioma, de uma área de desenvolvimento pessoal, de algo mais técnico que nunca tiveram tempo, etc);
  • Passear com o animal de estimação e dar-lhe a atenção que às vezes não se consegue dar com tantas rotinas (o stress baixa quando nos dedicamos aos animais, eles têm um poder benéfico enorme!);
  • Brincar com os filhos (para quem tem filhos);
  • Acompanhar nas tarefas escolares das crianças (também há vários professores a disponibilizarem-se para esclarecer algumas dúvidas que possam surgir);
  • Experimentar aquela receita que se anda para fazer há anos;
  • Entre outros.

Por fim, aproveito para fechar este texto com uma resposta, de um homem que admiro imenso, quando questionado por uma admiradora sobre os planos perante este tempo de isolamento. Nick Cave diz-nos isto: a resposta à crise “é criar, sempre”, “esse impulso salvou-me tantas e tantas vezes”, “é tempo de nos sentarmos e aproveitarmos esta oportunidade para ponderar exatamente a nossa função”, “ver o mundo com outros olhos, e uma maior reverência pela coisa maravilhosa que é”.

Helena Coelho

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Mafalda Moreira
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