NYC: “Não tens medo?”

As pessoas que ficaram felizes com a minha decisão de ir de férias a Nova Iorque (era um sonho antigo conhecido por todos) também ficaram apreensivas e admiradas quando lhes disse que ia sozinho. Tornou-se normal ouvir uma de duas reações: “Sozinho? Não tens medo?” ou “Eu não era capaz de viajar sozinho”.

Decidi ir de férias a Nova Iorque, nos Estado Unidos, a 21 de Maio de 2019. Uma semana depois estava tudo tratado. Iria a 3 de Janeiro de 2020 e voltaria a 12 de Janeiro (desse mesmo ano, com muita pena minha). Os seis meses seguintes foram dedicados a planear os meus dias na cidade que queria conhecer há mais de 10 anos para que não me escapasse nada.

Dizer “a cidade que queria conhecer” ainda é estranho. Cresci a suspirar pela cidade sempre que via o Sozinho em Casa, o Sexo e a Cidade, e tantos outros filmes, séries e contas de Instagram que pareciam dedicadas a relembrar-me dos sonhos que ainda não cumpri. E agora já posso falar no passado. Já conheci a cidade que nunca dorme. E é mesmo verdade. Não dorme.

Curiosamente, a minha viagem começou antes de sair de Portugal. Porque dediquei dias a viajar pelos motores de busca, em mapas e livros sobre Nova Iorque, e também porque as reações das pessoas a quem ia contando me foi deixando intrigado e a pensar.

Foram poucas as pessoas que encaram com naturalidade o facto de ir sozinho. A maioria ficou sempre do lado da surpresa e do receio. Afinal estaria a mais de 5 mil quilómetros, sozinho, sem conhecer ninguém e num sítio onde nunca tinha ido. Embora já conhecesse cada rua que queria visitar. Tive 10 anos para me preparar.

“E se acontecer alguma coisa?”

“Não te vais aborrecer?”

“É uma pena ir a um sítio desses e não ter ninguém com quem partilhar.”

“Não era capaz de viajar sozinho/a, ainda por cima para tão longe.”

“Não tens medo?”

“Por que é que vais sozinho?”

Estas foram algumas das reações que ainda me lembro, sobretudo pelo padrão que foram revelando. Decidi ir sozinho porque era o meu sonho e andava a adiar única e exclusivamente pela dificuldade em encontrar alguém que pudesse, ou quisesse, ir comigo. Deixou de ser um problema quando decidi que iria sozinho. Quando decidi que a minha companhia seria suficiente. Comprei a viagem, fiz as malas e vivi 8 dias que me deram um gozo inesquecível.

Falar desta viagem é difícil. Adoro falar sobre ela, não é disso que se trata, mas as palavras são insuficientes para descrever. É um pouco à semelhança do que acontece quando vemos um pôr-do-sol memorável e tiramos fotografia para partilhar no Instagram. Ficamos sempre desiludidos com a beleza que se perde quando vemos o pôr-do-sol no ecrã.

Percorri a Quinta Avenida desde a rua Norte da praça Washington Square Park até a 143rd Street/Harlen River Drive, em Harlem. Também fiz as avenidas 1 a 10 sempre a pé. Só queria caminhar para ouvir a cidade, estar com as pessoas, fazer parte daquele mundo que deste lado do oceano Atlântico me parecia tão distante. Ao segundo dia, já estava com bolhas nos pés e doíam-me as pernas. Acordava as sete e meia da manhã e nunca chegava a casa antes das dez da noite. Tinha tanto para ver.

Comecei e terminei de ler um livro magnífico, Kafka à Beira-Mar, de Haruki Murakami, em Central Park. É uma metáfora do mundo que não poderia ter feito mais sentido. Sempre acreditei que os livros também nos escolhem. Este foi particularmente perspicaz.

O primeiro sítio que visitar foi o Memorial do 11 de Setembro, a 4 de Janeiro, um dia depois de ter aterrado em Newark. Era o meu aniversário, 27 anos. Foi a primeira vez que celebrei longe da família, dos amigos ou de casa. Mas foi a melhor prenda de aniversário podia ter dado a mim próprio. Um dos sítios que mais gostei de visitar e que nos faz repensar a fragilidade de tudo, mas também a capacidade de cada um de nós tem para se reerguer.

Neste primeiro dia foi estranho sair do hotel sozinho, percorrer as ruas sem falar, visitar o Memorial sem ninguém para partilhar opiniões. Mas o mais estranho foi almoçar e jantar sozinho. No segundo, foi menos estranho. No quarto dia, tornou-se libertador poder fazer tudo o que queria sem limitações. Conversei com imensa gente, cruzei-me com uma emigrante portuguesa, conheci uma ex-actriz búlgara a trabalhar numa loja de luxo na Madison Avenue.

Em oito dias, nunca ouvi tantas pessoas, prestei tanta atenção ao que me rodeava e usufrui tanto da minha companhia. Eu, um livro e muitos quilómetros para percorrer.

Visitei a estátua da liberdade duas vezes, fui todos os dias a Central Park, percorri a Brooklyn Bridge a partir dos dois pontos de saída (Manhattan e Brooklyn), assisti ao musical Chicago, na Broadway, perdi-me em Times Square, estive em Queens, explorei mais de 10 museus e vi Nova Iorque a partir do Empire State Building e do Top of the Rock (durante o dia e à noite). Sozinho. E ainda bem que fui sozinho.

Quando cheguei ao aeroporto de Newark, fiz o que a maioria das pessoas talvez faça quando viaja sozinho pela primeira ou segunda vez: “Será que fiz bem?”. Quando cheguei ao aeroporto Sá Carneiro, no Porto, já tinha a resposta: “Sim.”.

No avião de regresso, queria chorar porque tinha acabado de realizar um sonho, mas também porque me sentia um bocadinho mais livre. Consegui fazer o que queria só porque deixei de esperar pelos outros ou de ter medo de estar comigo. Ou seja, acreditei que seria capaz e fui. O que senti nestes oito dias de viagem é a melhor recordação de Nova Iorque e ainda sinto. É a liberdade de não ter medo da minha companhia. Portanto, à pergunta “Não tens medo” a resposta só pode ser “Não”.

E tu, tens medo de viajar sozinho? Porquê?

Ricardo grilo

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Mafalda Moreira
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